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A maratona das 12 passas

A maratona das 12 passas
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Se pensam que o Natal em Portugal é calmo, a Passagem de Ano é muito diferente. É uma noite de barulho, festas e fogo de artifício. Mas se passarem esta noite com uma família portuguesa, vão ver um ritual muito específico.

Acontece exatamente à meia-noite. Exige concentração, rapidez e um estômago vazio. Estou a falar do desafio das doze passas.

Em muitos países, as pessoas bebem champanhe à meia-noite. Em Espanha, comem uvas frescas. Mas em Portugal, comemos uvas passas. São uvas secas, pequenas e castanhas. Não parecem especiais, mas nesta noite valem muito.

Vamos imaginar a cena.

São 11h55 da noite. O jantar acabou. De repente, a energia na sala muda. Fica frenética. Alguém olha para o relógio e grita. "Faltam cinco minutos!"

Este é o sinal para começar a Caça à Passa.

O pânico começa. Todos correm para a mesa. Veem avós, tios e crianças a contar furiosamente. Não estão a contar dinheiro. Estão a contar passas.

A regra é rigorosa. Precisam exatamente de doze passas. Nem onze, nem treze. Precisam de uma passa por cada mês do novo ano. Precisam de uma passa por cada badalada do relógio.

As pessoas seguram as doze passas na mão como pequenos tesouros. Olham para a televisão e esperam pela imagem do relógio.

Agora, falta um minuto para a meia-noite. A tensão é alta. Mas há mais uma regra.

Não podem ficar parados no chão de forma normal. Para começar o ano com sorte, devem entrar no ano novo com o pé direito.

Algumas pessoas levantam a perna esquerda e equilibram-se como um flamingo. Mas outras levam isto muito a sério. Sobem para cima das cadeiras. Imaginem uma família inteira em pé nas cadeiras da sala de jantar. Seguram a fruta seca e olham para a TV. É um ato acrobático perigoso, mas muito engraçado.

Então, começa a contagem decrescente. Dez, nove, oito... três, dois, um.

Blim!

Ouve-se a primeira badalada do relógio.

Atiram a primeira passa para a boca. Mastigam depressa. Engolem. E na vossa mente, fazem um desejo para janeiro. "Eu vou entrar no ginásio."

Blim!

A segunda badalada. Comem a segunda passa. Fazem um desejo para fevereiro. "Eu vou trabalhar menos."

Blim!

A terceira passa. Março. "Eu vou viajar para o Brasil."

No início, parece fácil. Mas o relógio não espera por ninguém. As badaladas continuam. Blim! Blim! Blim!

Pelo mês de agosto, as coisas ficam difíceis. A boca está cheia de passas. Estão a tentar mastigar, engolir e pensar num desejo ao mesmo tempo. Ficam sem ideias para desejos. Começam a desejar coisas vagas como "paz" ou "um carro novo".

Olham à volta da sala. Todos estão em silêncio. Têm as bochechas cheias. Têm os olhos bem abertos com pânico. Parecem hamsters. Mastigam o mais rápido que podem. É uma corrida contra o relógio.

Se acabarem de comer as doze passas antes da última badalada, parabéns. Vão ter um ano de sorte. Se ainda estiverem a mastigar quando a música começa, talvez outubro e novembro sejam meses complicados.

Finalmente, soa a décima segunda badalada. A maratona acabou.

Agora, o caos transforma-se em festa.

As pessoas saltam das cadeiras. Aterram com o pé direito, claro. Abrem-se as garrafas de espumante. O silêncio é quebrado por gritos de alegria.

Os copos tocam uns nos outros para o brinde. Ouve-se o som das bolhas e dos risos. A família dá beijinhos nas duas faces.

Usam o futuro para fazer promessas. "Este ano vai ser diferente." "Nós vamos estar juntos mais vezes."

O chão está pegajoso com o espumante entornado. Talvez haja uma passa perdida debaixo da mesa. Mas isso não importa. O ritual está completo. Os portugueses atravessaram para o ano novo com uma uva seca de cada vez.

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